sábado, 19 de dezembro de 2015

A Paixão Segundo G.H. - Fragmentos

"Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que pensava e sim outra - como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?"

"Até que por horas desisti. E, por Deus, tive o que eu não gostaria. Não foi ao longo de um vale fluvial que andei - eu sempre pensara que encontrar seria fértil e úmido como vales fluviais. Não contava que fosse esse grande desencontro."

"Por enquanto estou inventando a tua presença, como um dia também não saberei me arriscar sozinha, morrer é do maior risco, não saberei passar para a morte e pôr o primeiro pé na primeira ausência de mim - também nessa hora última e tão primeira inventarei a tua presença desconhecida e contigo começarei a morrer até poder aprender sozinha a não existir, e então eu te libertarei. Por enquanto eu te prendo, e tua vida desconhecida e quente está sendo a minha única íntima organização, eu que sem a tua mão me sentiria agora solta no tamanho enorme que descobri. No tamanho da verdade?"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre esse tal de amor

Como toda criança cresci ouvindo contos de fadas, com os encontros e desencontros entre príncipes e princesas. Depois que envelheci um pouco (porque crescer não deu certo), percebi que as vezes, os contos de fadas eram entre dois príncipes ou duas princesas. Por que a vida não deve ser tão simples assim...

Mas, nos contos de fadas da vida real, a maior dificuldade que enfrentei até hoje não foi uma maçã envenenada e caramelizada, muito menos as maldades de uma bruxa malvada. Muito pelo contrário, as dificuldades quase sempre foram a disposição dos envolvidos.

Encontramos quase tudo: a tão comentada química, construímos boas histórias, acontecem incríveis encontros. Beijos e abraços que se encaixam e corpos que se movimentam quase como se fosse um só. Mas, quando a disposição em dar certo falta, meu amigo, não há tesão/atração/interesse/identificação que aguente!

Porque o amor é para os dispostos. Dispostos a compreender que o outro não é uma coisa só. Que o ser humano é complexo, cheio de manias, de desejos e de limitações. Dispostos a aceitar que o encontro, naquele dia a dia mais pesado, quando não há nada mais pra fazer que olhar para a cara amarrotada do outro numa tarde fria de domingo, nem sempre é fácil ou gostoso ou belo. Dispostos a entender que por trás daquele outro corpo existe uma infinidades de histórias, sucessos e fracassos nem sempre acessíveis, mas, que são fundamentais para fazerem do outro o que ele é.

E o mais importante: que não existe apenas o meu amor, o meu modo de amar... que existe o outro!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Iguais e diferentes

Aconteceu tanta coisa esse ano que mais uma decepção nem foi surpresa. Nas últimas semanas, conheci um rapaz que sob um primeiro olhar parecia fazer todo o requisito para ficar, namorar e apresentar pra família no Natal. Bonito, inteligente, doce...

A combinação que faz o Tio J. ficar balançadinho. Mas, como tudo nesse ano belíssimo de 2015 - pausa dramática para que a ironia faça efeito - nada é exatamente o que parece, ele se mostrou além de todas as características acima um perfeito idiota.

Não sei se é ingenuidade de minha parte ou se realmente sou um caso raro - ou perdido, já não sei rs - acredito que num relacionamento, especialmente, no amoroso, é natural que enquanto vamos conhecendo a outra pessoa e apresentando quem somos, algumas coisas estejam em descompasso e talvez, em casos mais extremos, existam e se mantenham, algumas discordâncias.

Acredito que a beleza no encontro entre dois mundos diferentes é exatamente essa: reconhecer o que há de igual, que facilita/permite o contato e valorizar o aprendizado que vem daquilo que é diferente, certo? Ou é muita viagem de minha cabeça?

Não foi o caso. Uma pena que a diferença fundamental tenha sido justamente essa que afasta e impede o amor de acontecer: a intolerância com o limite do outro!

E foi exatamente assim: iguais em muitas coisas - especialmente no lado doce e romântico da questão - e profundamente diferente - já que não esteve disposto a compreender meus limites - .

Uma pena. A cereja no amargo bolo de 2015.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O sabor que lhe agrada

Em uma conversa com minha psicóloga ela me deu uma lição que jamais esquecerei na vida. Fazendo uma analogia entre relacionamentos e comidas, ela me deu uma importante metáfora pra entender a forma como podemos lidar com as diferentes possibilidades de relacionamentos que nos aparecem ao longo da vida.

Segundo ela, num banquete, nos são oferecidos diferentes pratos, com sabores, cores e texturas variados. E nossas escolhas diante das possibilidades é que demonstram o grau de comprometimento e de auto responsabilidade de cada um, com seu próprio organismo, diante das escolhas feitas. E a grande questão que ela me fez foi: escolher entre aqueles pratos gostosos, conhecidos mas que geralmente provocam azia ou enxaqueca; ou, atentando para a saúde, escolher aqueles que nutririam de verdade?

Qual sabor lhe agrada?

Diante dessa reflexão comecei a perceber de verdade que sempre recorri aos mesmos embutidos, gordurosos e pesados alimentos, quando lá no fundo o que realmente me faria bem seria uma salada ou algo mais leve... E hoje, parece que novamente a mesa foi colocada e certos padrões parecem que estão querendo se repetir.

Bom momento para lembrar as dificuldades enfrentadas e definitivamente, mudar esse padrão de pensamento que me acompanhou por tanto tempo!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre sentimentos e outras coisas

Sempre me considerei uma pessoa intensa, especialmente quando a questão é o amor. Mas a vida, com seus altos e baixos, acabou confinando esse lado de pura sensibilidade embaixo de uma postura por vezes blasé e hipersexualizada que o ocultou por um longo tempo.

Talvez, essa máscara precisava pra cair apenas do empurrãozinho de uma chance. Tipo a primeira gota de chuva que molha a terra e faz brotar tudo aquilo que só aguardava latente o líquido precioso. Talvez seja assim com o ser humano também... embora acostuma-se às adversidades da vida, seu lado sensível e romântico nunca o abandona de fato. Aguarda apenas a oportunidade de florescer.

E isso me deixa muito feliz, especialmente agora que parece o sol voltou a brilhar mais uma vez. O coração que se acelera, aquele doce perfume que não nos deixa mais e a primeira pessoa que vem à mente ao despertar e adormecer - alcançando os sonhos -

É, talvez o segredo fosse mesmo ser inteiro. Ser completo. E cheio de amor.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

#meuamigosecretoLGBT

Teoricamente, o meio universitário deveria ser um ambiente aberto e diverso, que propiciaria o debate e a valorização das diferenças, justamente por ser considerada um lugar para o desenvolvimento dos diferentes saberes...

Em minha trajetória de aluno, graças a Deus, eu sofri pouco preconceito o que aliás foi fundamental para que eu mesmo aceitasse minha condição sexual. A única agressão que sofri em 4 anos de graduação foi a publicação de uma nota de jornal que caracterizava o fato de meu namorado da época e eu andarmos de mãos dadas e nos beijarmos em público como algo desrespeitoso e que envergonharia a comunidade acadêmica - quando a mesma postura era naturalmente aceita quando se tratava de casais heterossexuais.

No entanto, em uma recente festa, ouvi alguns comentários super negativos de pessoas próximas quando fiquei com um rapaz que não seguia os padrões heteronormativos, ou seja, estava com roupas femininas num estilo andrógeno e barriga de fora. Dentre os comentários, o que mais me incomodou foi: você todo barbudinho com ar de nerd merece coisa melhor que essa bichinha pão-com-ovo.

Aí eu me pergunto: em que o fato de eu ser barbudo/nerd/discreto me torna melhor que o garoto afeminado, visto que somos tão iguais que estávamos nos pegando?

Vergonha alheia define...